segunda-feira, 13 de abril de 2009

Mudança

Amigos,

A "Velha Margem" agora é "pontonet".

E agora produz textos nocivos e sem sentidos em novo endereço:

http://anivelde.net/velhamargem/




Nos vemos lá?

quinta-feira, 26 de março de 2009

o trailer

luta de classes



Confesso que fui com uma certa má vontade conferir o "Entre os Muros da Escola", com medo de que o tema - os desafios de um professor em uma escola púbica francesa e diante de uma sala de aula que não o aceita - resvalasse em mais uma aula-lição no estilo "Ao Mestre com Carinho"...aquela coisa toda de que as pessoa se estranham no princípio, rola uma troca de farpas, mas no fim, diante de desafios maiores, todos se entendem, se descobrem e veem que são pessoas e que se amam e blá blá blá. Mas quem resiste à declaração de Sean Penn, presidente do júri que deu a Palma de Ouro em Cannes ao longa de Laurent Cantet, de que ele "tem tudo o que se pode querer de um filme"? E tem.

Primeiro porque assume riscos comuns em um trabalho desse porte, e escapa de erros básicos, que são - sempre - os clichês, as pieguices, os retratos forçados e estereotipados de uma geração.
E porque, ao falar sobre adolescentes, sistema de ensino, desafios do aprendizado, não se propôs, como não o faz, a tentar rabiscar um retrato da realidade, mas sim um recorte de algo que permeia relações humanas comuns em uma situação específica (a França dos imigrantes) e, mesmo assim, universais. E porque não se propõe, sobretudo, a emitir respostas, como refuta o próprio François Bégaudeau, autor do romance homônimo, ator principal e corroteirista do longa.

O filme é sobretudo um mergulho num turbilhão de perguntas, nas quais os próprios personagens estão imersos.

A começar pela brilhante atuação de Bégaudeau como professor de francês de uma turma tão complexa quanto a sua composição (são estudantes malienses, um marroquino, um chinês, uma muçulmana e por aí vai). Esperava que tocasse num ponto nevrálgico: a imigração ilegal, os preconceitos, e o direito dos filhos dos imigrantes de se utilizarem de um sistema público de ensino útil...acertadamente, a questão é deixada de lado, para depois, e apenas permeia uma das situações filmadas.
O que surpreende no filme é não haver vítimas nem algozes; mas diferenças de propostas e, mais que isso, a total ausência de noção do que leva a uma incomunicação entre os polos elementares de uma escola. De um lado, alunos, com trejeitos, rachas, posições e identidades em formação, e dispostos a lutar por algo que não sabem exatamente o que é.
De outro, professores dispostos (sem dúvida) a passar à frente um certo conhecimento, numa missão nobre em si, mas cuja proposta está asfixiada em uma instituição fechada, mais preocupada em vigiar e punir do que em saber exatamente onde todos, no mesmo e exato barco, estão sendo direcionados. Naquele lado, alunos diversos, que gostam de futebol, rap, MTV, e fissurados em iPods, celulares e outras janelas que os mantém distantes e conectados com o mundo. No outro lado, muros, grades, regras defendidas com velhas armas: giz e lousa.
Algo parece não dialogar; é afinal uma intifada de gente armada com paus, pedras e estilingue para combater os super-caças das mudanças que vieram pra ficar.

Por isso, é difícil para o professor aceitar ser questionado o tempo todo por alunos que ele imagina que nunca chegarão a lugar algum. Afinal, são jovens, vulneráveis (os pais podem ser deportados a qualquer momento), insolentes e não se importam com o que realmente importa.
Mas o que, afinal, importa?
O que todos fazem ali, fechados, se o imperativo é a abertura, é o novo? O que explica a ofensa do professor quando a estudante muçulmana pergunta por que, em seus exemplos, os nomes de personagens são americanos (Bill e Bob) e nunca árabes? Ou quando é questionado por que devem aprender o pretérito imperfeito do subjuntivo se aquilo não é usado nas ruas que conhecem em pormenores? (afinal, é pretérito) Por quê?

Em nome de uma missão, vê-se um professor em ponto de explosão quando para para suspirar, olhar, pensar, cerrar punhos e sobrancelhas - é impressionante notar o movimento do maxilar de Bégaudeau cada vez que um novato levanta a mão para tentar saber o porquê de algo. Talvez porque ele mesmo, o professor, não tenha explicação.
Vê-se no filme uma inspiração nítida da ideia de Michel Foucault de que a manifestação do poder, dentro das instituições, como as de ensino, se aplicam após a construção das formas de saber: é a instauração das disciplinas, de formas de controle (de presença, de chamada, de notas, boletins, reuniões com os pais) que permitem criar uma identidade a uma multidão dispersa, separada apenas por gênero e idade. E, ao produzir conhecimento, por meio de fichas, prontuários e históricos, alunos e professores se tornam os mesmos reféns de um mal maior: a instituição disciplinar.
Porque, quando se conhece, é possível identificar desvios; e quando o desvio se torna regra, a saída é se proteger, como o faz Simão Bacamarte, personagem de Machado de Assis em "O Alienista" quando resolve mandar todos para o manicômio (afinal, uma instituição fechada e disciplinar, como a prisão e a escola).

Talvez seja por isso que o professor do filme insista tanto para que cada um fale e produza sobre si mesmo na aula, mas se nega a dar explicações sobre sua vida pessoal - não se sabe quem é, a quê e de onde veio; o que leu e o que o inspirou. É porque, diria Foucault, produção do conhecimento sobre algo é uma forma de ter o controle em mãos.
No filme, o mal maior é apresentado como uma instância denominada "conselho disciplinar". Não se sabe exatamente para que serve, mas vê-se o temor dos alunos de que, ao ultrapassarem a linha do que deles se espera, possam ser levados a tal instância, que definirá os seus destinos - e talvez o de seus pais, ilegalmente instalados naquele país que abriga a todos, mas, ironicamente, não parece oferecer abrigo. As discussões nessa instância, como se vê, não é outra se não ampliar as formas de controle para que a própria instituição se proteja dos arroubos de adolescentes ferozes, dispostos a produzir revoltas em busca de uma única resposta: afinal, o que fazemos aqui?

Felizmente, esse questionamento não é feito com estiletes, revólveres ou ameaças se não verbais. Todos estão a ponto de explodir, mas, em meio à agressividade presente, conservam, do jeito deles, uma confusa mas pura noção de lealdade e orgulho. É o que se manifesta quando Souleymane, o aluno maliense que mal controla seus impulsos, é levado ao famigerado conselho. Está lá para se defender, mas sabe que não tem chance diante de algo criado contra ele. E a mãe, que não fala francês, está ali para defendê-lo, mas, diante da incapacidade de entender do que o filho é acusado, torna-se impotente também para selar qualquer destino.
São símbolos, significados e significantes, distantes de qualquer entendimento, desde palavras simples que os estudantes colocam na lousa por ignorarem o sentido, porque para eles, afinal, aquele uso é que não faz sentido. Assim como a escola, e assim como aqueles professores - cheios de boas intenções mas que, afinal, também parecem não saber o que fazem ali.

segunda-feira, 16 de março de 2009

sobre a via láctea, dinossauros e o fundo do poço


O aparelho de CD de casa pifou há uns bons meses. Nele só é possível, agora, ouvir rádio ou fita K7 (alguém ainda se lembra disso?). Após tentativa frustrada de sintonizar qualquer coisa em qualquer estação, resolvi ressuscitar uma velha fita de rocks antigos que marcaram um período, talvez o início dos anos 2000. Sei disso porque, em meio a uma e outra música que embalava uma folgada manhã em São Paulo, a fita é cortada ao meio e, criminosamente, começa a tocar Djavan, naquele acústico lançado, se não me engano, em 2001, e que vendeu feito água.
Sei que corro o risco de ser chamado de iconoclasta por essas e outras, mas toda vez que escuto Djavan lembro de um amigo que, certo dia, no bar, desenhou uma espécie de ranking da música popular brasileira. E explicou que, em sua avaliação, existiria a música boa, média, ruim e abaixo, bem abaixo, haveria o Djavan.
Achei exagero. Mas, ouvindo o clássico "Se", lembrei de outras peças que me fazem pensar como um cara que entoa "mais fácil aprender japonês em braile do que você decidir se dá ou não" conseguiu gravar com gente da estirpe de Chico Buarque e Beto Guedes _ok, devo dizer que gosto da parceria dele com o Jairzinho e a "Turma do Balão Mágico", em que ele canta "sou feeeeeeeeeeeeliz por isso estou aaaaaaaqui".
Não sou crítico de música nem de cazzo algum, e até reconheço que a voz do cara dá um verniz interessante a letras que, a princípio, parecem embalar bons sentimentos. Mas é só tirar a voz e pensar no que estamos cantando e logo temos a impressão de que estamos lendo mensagens em paredes de banheiro mal envernizadas. Exemplos:"Tudo que Deus criou pensando em você. Fez a via láctea, fez os dinossauros..." (esse mesmo amigo do bar disse ter perdido dias de sua vida imaginando Deus olhando carinhosamente para um Tiranossauro-Rex e se inspirando pra criar uma, digamos, Dercy Gonçalves)
ou
"São Jorge, por favor, me empresta o dragão"...
ou "Insiste em zero a zero, eu quero um a um".
ou o "Te devoraria tal Caetano a Leonardo DiCaprio".Sem contar o final daquela música, insuportável, "Lilás": "Eu quero ver o pôr do sol lindo como ele só, e gente pra ver e viajar no seu mar de raio raio raio raio".
Nossa, como é ruim. Se alguém tiver estômago, espere só o final da música e conte quantas vezes ele repete isso, tentando nos ganhar.
Mas voltando ao dragão, lembro quando descobri na internet um funk pesadão, daqueles proibidões, que dizia o seguinte:
"A Chatuba come cu e depois come xereca, ranca cabaço, é o bonde dos careca / Máquina de sexo, eu transiguanimal, a Chatuba de Mesquita no bonde sekisoanal (sic) / Moleque playboy, funkeiro sekisoanal (sic), a Chatuba de Mesquita come a mina de Geral".
Até aí, podemos pensar que a música chegou ao fundo do poço. É o que todo mundo pensa e diz mesmo. Quero ver alguém dizer que o fundo do poço já tinha sido cavado pelo Djavan antes. Quer ver? Basta dizer que, no funk, há uma expressão crítica de um grupo oprimido e sem perspectivas de ser agraciado no fim do ano com uma bolsa no Prouni e resolve reafirmar sua identidade por meio da música, enquanto homem que vê na conquista da relação sexual (no caso, com as mulheres do grupo rival, de Vigário Geral) a moeda que lhe permite reivindicar uma autoridade e o controle de uma área adversária notadamente dominada pelo tráfico, pela luxuria e pela violência. Viu só: a música começa com cu, e termina com a realidade da juventude transviada expressa em letra, música e putaria.
Mas e o dragão? Que caralhos o Djavan queria com o dragão?
Meu amigo do bar pode até ter exagerado. Mas eu ainda fico com a Chatuba.

sexta-feira, 6 de março de 2009

lembranças do seu Armando




Fiz esse texto em meados de março de 2007, quando nosso amigo Armando, o andarilho que passava de bar em bar de São Paulo vendendo os bonequinhos confeccionados pela esposa, morreu após sofrer infarto no meio da rua. Na última terça-feira, estava no bar que frequento há pelo menos cinco anos, e começamos a lembrar dele. Exatamente na última mesa onde tive com ele minha última conversa _e comprei meu último boneco da coleção mal iniciada. O texto nunca me serviu pra nada; nunca foi publicado, nem em papel, nem na internet. Lembrando da história, deu vontade de usar esse espaço para render minha última, e retardada, homenagem ao sujeito que deixava o fim das noites mais poéticas no duro concreto da Paulista...


Segue:







Seu Armando saiu de casa sem a bicicleta na noite de quarta-feira. A pedido da esposa, pegou o ônibus na Vila Cachoeirinha, zona norte de São Paulo, porque andava cansado para pedalar.
Como toda noite, seguiu para a avenida Paulista, onde havia pelo menos 35 anos iniciava sua ronda noturna por bares da chamada "Prainha", na Joaquim Eugênio de Lima.
Andava animado porque encontrara naquele dia um antigo amigo que vive na Europa e, de férias no Brasil, havia encomendado toda a coleção de bonecos de pano, confeccionados por sua esposa, que Armando vendia pelos bares da Paulista e da Vila Madalena de domingo a domingo. Depois de se encontrar com o amigo, almoçou com os filhos, descansou e, antes de sair de casa, repetiu a pergunta feita todas as noites à esposa, Vera: "quer que traga alguma coisa da rua?"
A rua era a segunda casa de seu Armando. Com os cabelos compridos, brancos de certa idade e presos só por uma fita elástica, trotava de bar em bar com a magreza peculiar tentando vencer a rabugices de boêmios que se mostravam incomodados com suas ofertas. Àquela altura, não demonstrava receio para interromper conversas em mesas já emporcalhadas de cerveja e embriaguez. Não podia ver alguém triste que já puxava papo: queria saber dos nomes, das profissões, das rotinas. Às vezes até se esquecia dos bonecos.
Aos 62 anos, Armando Rafael Colacioppo tinha jeito pra palhaço, mas dizia mesmo ser o último socialista de São Paulo. Paulistano _nasceu e cresceu na rua Barata Ribeiro_ e engenheiro naval formado pela USP, queria ter na vida apenas duas camisetas. Uma para usar e outra para lavar.
Em uma espécie de troncha levada como sacola, carregava pelas ruas bonecos que ficaram tão famosos quanto os bares que frequentava_o Marciano Tarado, o Zé Celsinho, o Inconsciente Coletivo. Vendia por noite 30 bonecos, a R$ 5 cada _se o cliente chorasse, levava até por R$ 2.
Da região da Paulista, seguia, a pé ou de bicicleta, até a Vila Madalena. E, antes de voltar para casa, comprava, a pedido da mulher, alguma encomenda, geralmente fruta ou iogurte. Tentava convencê-la a parar de fumar.
Brincava com Vera que, agora que os filhos, os publicitários Márcio e Roberto Colacioppo, haviam casado, estava livre para fazer a revolução ao lado dela.
Queria viver como hippie e, segundo a mulher, quase conseguiu.
Na última semana, no último trecho de sua última caminhada, no Bar Filial, na Vila Madalena, encontrou-se pela última vez com velhos amigos da noite _hoje quase todos avôs.
Mas Armando, antes mesmo de começar a revolução, resolveu não voltar pra casa. Às 6h20, entrou no hospital na Vila Cachoeirinha porque não se sentia bem.
E caminhou até o corredor, à espera de um atendimento para o qual não havia tempo. Um infarto do miocárdio interrompeu a caminhada. Em sua última passada, esta mais larga, Armando estava junto de seus bonecos e da velha camiseta. Pronto para a última caminhada.

terça-feira, 3 de março de 2009

perdão inacabado


Rachel é a mulher perfeita prestes a realizar um sonho e a lavar a alma de uma família rachada e em reconstrução. Está grávida, ama e é amada, e vive o melhor momento da carreira. Lotou a casa de amigos para sua festa de casamento alternativa; apaixonou-se por um músico havaiano, adorado pelos amigos e orgulho dos pais e da irmã, e é recebida de braços abertos pela nova família. Faz tudo certo, e por isso faz com que tudo saia como o planejado, assim como fez durante toda a vida. Mas é Kim, a irmã rebelde viciada em drogas e pivô do racha familiar, interpretada Anne Hathaway, quem toma as atenções em "O Casamento de Rachel".


Curiosamente, é exatamente o fato de estar à margem em uma festa que não foi feita por ela, para ela e sobre ela, que a desola durante o filme.


A irmã, perfeita, é o centro das atenções, o alvo de discursos e músicas feitas pelos amigos em uma homenagem graciosa, que parece não ter fim. A cada brinde, uma dor exposta à irmã, que recebe uma espécie de licença na clínica de reabilitação para acompanhar a festa. A ela cabe apenas observar, como coadjuvante, a consagração de alguém que fez tudo certo toda a vida.


As nuances, as competições e provocações, as rebeldias no comportamento de alguém que parece disposta a deixar uma vida de desleixos e dor, são ingredientes que fazem deste filme de Jonathan Demme uma das melhores opções em cartaz hoje em São Paulo. Mas são apenas o pano de fundo de algo que se revela por meio de uma busca que se expõe, e se sobrepõe, sobre qualquer mentira sobre perdões, felicidades e planos futuros; o trauma é a base de uma família que se salvou da destruição, mas não das mudanças; e faz com que a tragédia se instale na eternidade.


Quando jovem e viciada, Kim foi incumbida de passar uma tarde com o irmão caçula, Ethan. Sob efeito de drogas, envolve-se em um acidente de carro, que vai parar em um lago profundo sob uma ponte, de onde não consegue soltá-lo; preso ao cinto de segurança, Ethan não sobrevive.


Não estará vivo na festa do casamento da irmã mais velha.


A morte do filho mais jovem parece um fantasma a penar pela casa; com ele, a certaza de que o perdão pode ser anunciado e até jurado, mas nunca aceito. Vai ser revisto toda a vida, e toda vez que aparece pode causar novas fissuras.


A mais dolorosa delas é quando a mãe das meninas se demora em um abraço longo na filha que é noiva e é, ela toda, vida, enquanto Kim, bem ao lado daquela consagração, recebe apenas um beijo na face, rápido e custoso, de quem não a suporta. Essa certeza, e a sensação de não ser suportada em um ambiente confrontado com o passado mesmo nos momentos mais alegres, são a sina de quem queria mergulhar numa experiência de sabores e sensações, como qualquer jovem, mas na vida recebeu apenas a missão de ser estorvo.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

desapaixone-se


Com uma toalha segurando os cabelos e os pés apoiados na janela, Holly (Audrey Hepburn) rabisca algumas notas no violão enquanto Paul (George Peppard), postado num andar superior do mesmo prédio, a observa sem piscar. A música, “Moon River”, progride e a cada acorde a câmera se aproxima dela, até ser focada de vez em seu rosto. Justamente no trecho que diz: “There’s such a lot of world to see”. Paul está apaixonado. Todos estamos.
Só não sabemos qual parte do mundo coube aos dois ao fim de “Bonequinha de Luxo”.
Nem podemos imaginar que fim teriam Jack e Rose se o personagem interpretado por Leonardo DiCaprio não tivesse escorregado daquele bloco de gelo, soltando para sempre as mãos de Rose (Kate Winslet). A distância num caso e a morte, no outro, mantiveram conservados para sempre os suspiros de amores contraditos dos principiantes.
Mesma sorte não tiveram Frank e April, vividos pelos mesmíssmos DiCaprio e Winslet no novo filme de Sam Mendes, baseado no romance de Richard Yates, “Revolutionary Road”, toscamente traduzido no Brasil como “Foi Apenas um Sonho”.
Sorte que parecia consumada, pois aquele mesmo “tanto mundo” cantado por Hepburn estava disponível ao jovem e belo casal nos Estados Unidos do pós-guerra. Tinham a vida e o mundo pela frente, algumas sobras de suspiros, uma beleza ainda intacta, dois belos filhos, além de uma linda casa branca – com varanda, um quintal e várias janelas para ver o sol nascer, como na música. Sol que está presente o tempo todo durante o filme, iluminando cada canto de uma casa típica da família doriana. Aquela vida branca, clara e bela, é um inferno. Ele é chucro e, para ela, um sujeito covarde, pouco interessante e incapaz de aceitar mudanças; ela, sonhadora, é uma atriz frustrada, sem talento para o palco ou para mãe e dona do lar. Os personagens são personagens desencontrados, num palco para eles desconhecido, interpretando uma peça que desprezam.
Nas mais de duas horas de filme, o que se vê é a tensão existente entre dois jovens que veem o mundo cantado por Hepburn se perder das mãos. Descobrem que aquela vida é uma farsa encenada para agradar os pais e os vizinhos solícitos e aparentemente felizes, com quem mantêm conversas bestas sobre assuntos detestáveis. Ambos parecem não só terem notado viverem uma alegria falsa; notam, sobretudo, que a felicidade não existe em meio àquele “vazio sem esperança”, branco como o branco, a mistura de todas as cores fundidas e...invisíveis.
Esse vazio é apontado pelo único personagem que tem coragem de enlouquecer e assumir que enlouqueceu – o filho de uns vizinhos, recém-saído do hospício. Detestável, como a verdade.
Assim como em “Beleza Americana”, do mesmo diretor, esse “vazio sem esperança” do modo de vida que escolhemos é também posto em xeque. A pergunta: o que fazer depois do triunfo?
Na vida, somos treinados o tempo todo para os grandes momentos, e não os pequenos. Ouvimos histórias sobre triunfos da coragem, sobre a necessidade de sermos homens, realizados, alegres, dispostos, honestos, trabalhadores; bons amantes, bons pais, bons vizinhos. Somos criados para vencer, superar a escola, a carreira.
Mas o filme parece dizer que nem sempre temos vocação para esse mundo que nos é imposto como um desafio; porque sabemos atravessar desertos, mas não sabemos como agir após a travessia.
Ao notar que a alegria e a paz prometidas para após o desafio – juntar os trapos, ter uma casa e os filhos – April e Frank são incitados agora não apenas pelo tédio, mas pela própria noção de incapacidade. Essa incapacidade, representada no filme como a ausência de talento e sensibilidade que angustia o mesmo casal, sem esperanças se não à de fugir para outro mundo (Paris?). É justamente o que os leva à destruição.
Em momento-chave, Frank, que já lutara na guerra, confessa, bêbado, que sentia falta das frentes de batalha, dos conflitos, da guerra, e até de sentir medo. Porque, diante do perigo, sentia o sangue correr pelas veias. Sabia que estava vivo.
Mas os tempos, Frank, agora são de paz, e mesmo sendo treinados para sermos heróis, temos que nos acostumar com os esforços para nos contentar com as comodidades da geladeira. Ou do quintal. Ou da casa branca de madeira nobre. Ou da competiçãozinha fétida com o vizinho de grama mais verde ao lado. Das escapadas num sábado à noite. Dos olhares da colega de trabalho. Da promoção no trabalho que nos esmaga. Da praia, suja e lotada no fim de semana. Da embriaguez. Das conversas tontas de quem sonha apenas em levantar, cumprir o que nos foi determinado, dormir, e esperar morrer. Enquanto a TV nos distrai.
Em “As Benevolentes”, Max Aue, o agente da SS que narra sua versão da segunda guerra, afirma que a vida parece ser feita por quem já descobriu que ela é uma farsa, e, cinicamente, não se importa com isso; por quem ainda não descobriu que é uma farsa, e se aliena nas pequenas e pueris alegrias; e por quem, como Jack e April, já sacou que o tédio triunfa, mas sofre com isso e busca respostas.
E por sofrerem, e por sermos criados para vencer, lutar, e ir à frente, é que, sem objetivos, nos distraímos, como Jack e April, com os passatempos favoritos da nossa geração: destruir quem está ao nosso lado.
Em minha vida, cansei de ver meus tios, casais de amigos, pais de amigos e até meus próprios pais se humilharem, entre eles mesmos, ou diante do mundo, para saber quem pode mais. Como se o sonho de ser tornar astronauta tivesse sido abortado em nome de um dever que nos foi delegado: cuidar dos filhos, da casa, do sustento. Sabem que, fora a casa, não foram capazes de construir nada, absolutamente nada, juntos. Capazes foram somente de cuspir méritos, à espera de um reconhecimento que não virá, e minar o que o outro tem de melhor, com o intuito de não o perder para o resto do mundo.
Ganância, ciúmes, cobranças; indiferença, desencanto, desprezo. A alegria de desautorizar e se vingar por aquela viagem negada naquele verão. Ou porque as coisas, ao lado de mais alguém, jamais vão sair exatamente como imaginamos no começo.
Pois é. O filme é uma patada no estomago, e saí dele direto para o bar, para murmurar sozinho. Meu estomago ainda doía. Diante do argumento exposto a mim naquele filme: sim, sabemos vencer o inimigo, mas não nos comportar em tempos de paz.
Por isso, seguimos guerreando, pois se por um lado não há mais causas, por outro, as armas ainda existem e estão ao alcance. São usadas para nosso esporte favorito: enlouquecer e levar à loucura não o inimigo, mas aqueles que aceitaram viver perto de nós. Supostamente para toda a vida.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

...ou NDA?



Pena. Poucos filmes que assisti frustraram tanto minhas expectativas como
“Slumdog Millionaire”, já cultuado longa de Danny Boyle e, como dizem, favoritíssimo para levar o Oscar.
Não que seja ruim. Mas fui a ele numa sexta à noite, quase madruguenta, após baixar o arquivo no computador – o filme só chega no Brasil depois da premiação – como se fosse ao encontro de algo que mudaria para sempre minhas concepções mais arraigadas...Deveria ter juntado uma graninha a mais e viajado para o Taj Mahal para isso, como fez minha amiga Roberta Tasselli.
O filme, traduzido no Brasil como “Quem Quer Ser um Milionário?” conta a história de Jamal Malik, garoto indiano que participa de uma espécie de “Show de Milhão” de seu país. Tirem o Silvio Santos do palco e coloquem o menino diante de um cover do Afanasio Jazadji, cover de deputado e radialista paulista, que só ri e zoa os cara quando alguma câmera é ligada. Fora de lá, é um calhorda, arrogante, disposto a espetar o convidado cada vez que lembra que o menino nasceu na favela e hoje não passa de um assistente de telemarketing. Isso já é metade do filme.
Repito: pena. Porque a proposta, mal executada, parece ser genial: mostrar como um menino pobre, órfão desde cedo, perdido no emaranhado das ruas e entulhos das favelas da gigante Mumbai (antiga Bombaim e futura maior cidade do planeta), consegue ter todas as respostas para todas as alternativas que lhe são dirigidas ao longo do filme, tanto pelo apresentador do programa como pelos personagens às sua caça pelas ruas. Como se os caminhos não tivessem uma resposta certa, mas quatro alternativas erradas, das quais nos livramos ao nos desviar delas pela lógica ou por eliminação.
O que conduz Jamal, parece dizer o diretor, não é o que o programa oferece. Ele parece saber da espetacularização da miséria ou do desafio que supostamente propõem seus idealizadores na TV _dar uma chance a um jovem condenado às mazelas da pobreza a oportunidade de ficar rico e se tornar, enfim, gente. Algo bem parecido com o que vemos com as casas, carros e reformas oferecidos para quem se dispõe a se rebolar pelado em cima de um tambor de óleo para elevar o traço de audiência em programas de auditório por essas paragens.
O que conduz Jamal e o ensina não é o preparo para o desafio na TV, mas a própria rua, a vivência, que se apresenta e o leva a emitir as respostas certas. Jamal parece saber que dar a alternativa correta diante das perguntas que podem mudar o rumo de nossas vidas não é questão de estudo, preparo, raciocínio nem exclusão; para Jamal basta recorrer à memória. Ele não tem, como se verá, as respostas de todas as perguntas, mas apenas para as perguntas que lhe são apresentadas. É o que precisa saber. Porque as perguntas, lançadas a ele como bombardeios, já foram respondidas, e foram os próprios desafios de sua juventude esmagada, fugitiva, sobretudo de desencontros e trapaças, que o faz responder qual é o nome do presidente impresso na nota de cem dólares ou o lema na bandeira indiana.
Ao fundo, Boyle parece dizer: malandro que é malandro não sabe a resposta, mas desvia de erros e não se deixa enganar nem confiar. Nem mesmo no próprio irmão.
No país das crenças, em mitos, deuses e agora nos homens que conduzem um país em expansão econômica, é o pé atrás, não a fé, que orienta cada passo do desafiado. É o que Jamal parece levar em conta, no momento mais instigante do filme, quando o próprio apresentador – o Jazadji cover – se mostra confiável para lhe empregar a peça – uma das tantas que o rapaz aprendeu a driblar desde cedo.
Curiosamente, são as respostas, e não as perguntas, que levam Jamal a ter de responder, por sua vez, por seus atos, numa delegacia, para esclarecer aquele dom, visto, não pelos milhões de expectadores que nele veem a salvação, mas pelos próprios produtores daquela farsa na TV, como uma fraude. Portanto, caso de polícia. Talvez uma crítica indireta desenhada pelo diretor para mostrar o quanto aquela Índia, que produz e cria as suas crianças em condições subumanas de desenvolvimento, parece, ela mesma, desacreditar que daquele meio seja possível emergir algo limpo e esclarecedor.
As respostas sobre as respostas, ditas por meio de um interrogatório na delegacia antes mesmo do desafio final, é o que liga o filme à infância de Jamal. Bem como Sherazade, o autor das histórias – dessa vez reais – garante não novas 1.001 noites de vida, mas o crédito da plausividade. A plausividade do absurdo, que começa ao nascer, ao crescer e ao ser desafiado com questões em um mundo povoado de trapaças, como os milhões oferecidos naquele show como numa alegoria.
Mas não são os milhões de rúpias que levam Jamal ao programa. O que o leva até ali é a única coisa que parece ter sentido para ele, e que é capaz de tirá-lo do sério toda vez que lhe é tomada das mãos: o coração. Aargh...Dá revertério só de escrever isso.
Pois é aí que o filme perde a mão: ao colocar como pano de fundo uma história de amor desencontrada, Boyle parece disposto a encenar um conto de fadas, capaz de fazer refletir, mas também de agradar ao público, todos os públicos, exatamente como o fazem os shows de auditório que tão bem conhecemos.
Sem contar as músicas, péssimas, que tocam do nada a cada cinco minutos, toda vez que os atores se pegam a correr – sim, outra baixa do longa: todo mundo corre de tudo e de todos, menos de seus estereótipos.
Não fosse essa solução dada aos questionamentos que o filme se propõe, o longa fatalmente entraria no topo da minha preferência para a premiação de logo mais. Mas, pela confusão e pelo clichê, pelo sentimentalismo ingênuo e esperançoso, fica guardado como decepção. Mantenho meu voto em “Milk”.
Parêntesis. Uma coisa deve ser dita. A atuação dos moleques indianos, em um cenário indiano, no meio de uma produção como cara, sotaque e natureza britânica, é imperdível. De se tirar o chapéu.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009